Maria José Salgado Lages, filha de José Gonçalves Lages e Maria Salgado Lages, nasceu em Maceió, no dia 17 de junho de 1907. Enquanto frequentou a Academia Santa Gertrudes, em Olinda, recebeu o apelido de Lily Lages, como ficou conhecida em sua vida profissional, acadêmica e política (Chalita, 2021, 13).
Em 1931, formou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina, de Farmácia e Odontologia da Bahia, após ter sido aprovada com Disnção (Chalita, 2021, 23). Reconhecida por seus trabalhos científicos, em especial a tese entitulada de “Infecção Focal e Surdez” que teve grande repercussão nacional e internacional com conceituados mestres como o austríaco, Markus Hayek (Chalita, 2021, 24-26).
Apesar de sua brilhante atuação acadêmica, a médica Lily Lages também teve marcante atuação política e ativismo feminino. Em 1932, fundou a Federação Alagoana pelo Progresso Feminino, filiada à luta de Bertha Lutz e Maria Luiza Bittencourt (Chalita, 2021, 47). Em entrevista publicada pelo Jornal do Brasil, expôs sua opinião acerca do movimento feminista brasileiro:
“Tenho a segurança de que a mulher triunfará sempre e que resume uma força estupenda de ação, com o direito, portanto, de interferir, mais assídua e inmamente no trabalho de reorganização das nossas leis e códigos, reparando as injustiças dos homens e defendendo os princípios fundamentais da imprescindível e urgente renovação social” (Chalita, 2021, 47)
No mesmo ano de 1932, no início do governo de Getúlio Vargas, foi promulgado o Código Eleitoral e criada a Justiça Eleitoral Brasileira. Dentre os avanços, a norma eleitoral previa o voto secreto, o voto feminino e o sistema proporcional de votos, com dois turnos. Com a promulgação da Constituição de 1934, foram consolidados na Carta Magna as garantias do voto secreto e obrigatório, o sufrágio femino e a criação da Justiça Eleitoral.
Com as mudanças legais e a promulgação do novo Texto Constitucional, o médico Arthur Ramos foi o primeiro a lançar a candidatura de Lily Lages a um posto na Assembleia Constituinte. Todavia sua indicação definitiva para a vida política partiu do interventor Osman Loureiro, que a incluiu no rol dos candidatos do Partido Republicano (Chalita, 2021, 61-62).
De forma que, no pleito de 14 de outubro de 1934, o Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas concluiu a apuração das eleições complementares e Lily Lages fora sufragada com 13.891 votos, no 2º turno (Chalita, 2021, 64)
Durante sua legislatura, atuou como constituinte da novel Constituição Estadual, cujas emendas propostas tinham como característica a preocupação com os interesses sociais, voltados para as mulheres, crianças e pessoas com deficiência (Chalita, 2021, 66-67). Dentre as propostas aceitas, destacam-se a vinculação de 7% (sete por cento) das receitas do Estado para o Serviço de Saúde Pública e de 2,5% para a Maternidade e a Infância (Chalita, 2021, 67-69).
Ademais, conseguiu garantir a autonomia municipal para três cidades: Junqueiro, Belo Monte e São Braz (Chalita, 2021, 69).
A deputada também defendia a liberdade de expressão e igualdade social, repudiando fortemente as ideias totalitaristas da época. Quando questionada acerca da Lei de Segurança ( Lei nº 38 de 4 de abril de 1935), Lily Lages emitiu as seguintes manifestações:
“Como médica lastimo que não se tenha nessa época de pleno entusiasmo pelas questões eugênicas, evitado o aparecimento desse triste fenômeno teratológico. Oxalá vesse ele os minguados instantes de vida que têm os monstros inviáveis... Não posso compreender tal medida num país que se diz civilizado. Retrocederíamos a tempos piores que os da escravidão negra. Arrancar ao indivíduo a possibilidade de pensar livremente, de exprimir ideias pessoais, de opinar, proclamar em alta voz o que lhe revolta a alma, é submetê-lo à mais desprezível das escravaturas, a escravatura do espírito.
Agrilhoam-se os pulsos mas nos cérebros não se põem algemas… Além do mais a violência é quase sempre improcua. Sob a calma aparente fervem as rebeliões inconfessadas, os impulsos recalcados, na poderosa latência dos vulcões.”
(...)
“Acho que, para quem governa, devem ser imprescindíveis aos comentários, a críca. Estes quando não sejam agressivos atuam como benéfica advertência, como necessários estímulos. Os espectadores, livres da responsabilidade dos papéis, do atordoamento do poder, são capazes de melhor sentir e julgar.”
Por fim, emitiu a seguinte ironia para indicar como a Lei de Segurança de Vargas atingiria a profissão de médica:
“A minha especialidade? Sim. Será decerto menor o número de clientes... Sob a pressão de tal lei haverá talvez vantagem em ser cego e surdo. De que nos serve ver e ouvir, se não nos é permitido falar? (Chalita, 2021, 64-65)”
Encerrado o mandato popular prematuramente pelo fechamento da Justiça Eleitoral e decretação do Estado Novo de Getúlio Vargas, em 10 de novembro de 2017, Lily Lages continuou sua trajetória acadêmica e de ativismo social.
Somente quarenta anos após Lily Lages, foi eleita outra mulher para o parlamento alagoano, a deputada Luiza Evangelista, em
.jpeg)